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Do Negro ao Branco: breve história da Umbanda

NEGROUma das religiosidades de matriz africana que cresceram bastante nos últimos anos no Brasil foi a Umbanda. Trata-se de um tipo de religiosidade bastante complexa, que não apresenta uma constância em suas práticas, mas, pelo contrário, é marcada pela variação e diversidade de crenças e ritos de um terreiro para outro. Para explicar esta inconstância presente nesta religião, devemos nos voltar para sua história, o modo como esta religião de matriz africana foi-se constituindo ao longo dos anos, até chegar ao que é hoje.

Segundo alguns autores, a Umbanda teria nascido no início do século XX, mais precisamente em 15 de novembro de 1908, num centro espírita de Niterói (RJ). Um jovem carioca pertencente a uma família de classe média, de nome Zélio de Moraes, em sessão espírita na Federação Espírita de Niterói, teria recebido o espírito de um caboclo, que revelara a nova religião. No outro dia, na casa de Zélio, iniciavam-se os trabalhos desta nova religião. O nome dado à casa de orações foi Tenda Nossa Senhora da Piedade, e lá acorreram alguns médiuns kardecistas que haviam sido escorraçados dos centros kardecistas por terem incorporado caboclos, pretos-velhos e crianças, entidades não aceitas nos centros kardecistas.

Esta história da fundação da Umbanda é defendida por vários autores e reproduzida em vários livros, alguns mais detalhistas, outros apenas citando o evento (SARACENI, 2003; PINHEIRO, 2004; DUARTE, 2002; SILVA, 2005). Mas esta história é, na verdade, um mito fundador da Umbanda, que ganhará força após a década de 1940, no Rio, com a constituição do I Congresso Brasileiro de Umbanda. Note-se que, neste mito, aparecem alguns elementos interessantes, que visam afastar a Umbanda de maiores influências da cultura negra africana. Nesse sentido, criar uma identidade nacional desvinculada da figura do negro era essencial. Autores como Silvio Romero e Nina Rodrigues reforçam estas idéias em suas obras, colocando a culpa pelos atrasos brasileiros na presença do negro em terras brasileiras. Este quadro vai acabar influenciando a Umbanda, que pretende ser uma religião brasileira, portanto imbuída destas teorias nacionalistas que pretendem excluir o negro do processo. Esta é a principal discussão do primeiro congresso de Umbanda realizado no Rio de Janeiro em 1941. A preocupação dos participantes era justamente a de reafirmar a origem mítica da Umbanda, ocultando qualquer relação sua com a África, com a macumba carioca. É assim que este mito de fundação ganha forças e passa a figurar nas obras de diversos intelectuais que estudaram esta religião como o nascimento oficial da Umbanda.

Mas o processo que levou à constituição da Umbanda é muito mais longo e antigo do que parece. Ele se inicia alguns anos antes, quando da chegada dos primeiros navios negreiros às costas brasileiras, e está intimamente relacionado com a presença do negro africano em terras brasileiras, com o nascimento dos candomblés e com a figura do feiticeiro negro. Voltando um pouco no tempo, perceberemos que não foi só pelos candomblés que as práticas religiosas de origem africana se perpetuaram. Fora dos terreiros, em casas simples e barracões, vários líderes religiosos conhecidos como “feiticeiros negros” prestavam diversos serviços à população local, concorrendo com a Igreja Católica e até mesmo com a medicina oficial. Alguns destes feiticeiros ganharam notoriedade na sociedade e, quando isto ocorria, o governo imperial tratava logo de dar-lhes um sumiço. Eram condenados à prisão sob diversas acusações, como estelionato, prática ilegal da medicina ou, simplesmente, acusados de praticar feitiçaria e curandeirismo, considerados crimes na época. Nestas casas de feiticeiros, diversas práticas se misturavam e se aglutinavam. Não havia códigos rígidos de conduta, nem ritualísticos. As práticas seguiam única e exclusivamente as ordens de seu líder religioso, que podia se denominar pai-de-santo como no candomblé. Misturavam crenças de origem africanas, como os orixás e eguns, com práticas xamânicas indígenas, santos católicos, realizavam benzições, receitavam chás e ervas com efeito de cura, entre outros. O termo sincretismo foi bastante utilizado por alguns autores que estudaram esta religião para descrever esta mistura.

Assim, este quadro cultural efervescente dará origem a uma variedade enorme de práticas, crenças e ritos que se utilizam de elementos africanos, católicos, indígenas, em diferentes graus. Todo este quadro religioso de práticas mágicas, baseados nas figuras dos feiticeiros negros, é chamado por Roger Bastide de macumba. O termo macumba origina-se de um instrumento musical utilizado em vários rituais africanos. Trata-se de uma espécie de reco-reco, e sempre que se ouviam músicas africanas, alguns diziam que estavam “tocando macumba”. Assim, o termo acabou se estendendo ao culto, e logo após passou a denominar a casa onde ele era praticado, surgindo assim as ‘Casas de Macumba’.

Esta macumba estava espalhada por praticamente todo o Brasil e era um conjunto de práticas desconexas, sem um corpo doutrinário que as unisse em torno de uma única religião. Os praticantes destes cultos e rituais eram perseguidos, no início pela inquisição, e depois pelo Estado, que os perseguia em nome do combate ao atraso e à barbárie.

O nome Umbanda passa a ser utilizado a partir do final do século XIX e início do XX e deriva do nome do sacerdote na língua africana kimbundo, chamado de Umbanda, e, no plural, Ki-mbanda. É possível que este nome tenha se espalhado e foi apropriado pelos líderes de terreiros, que substituíram a macumba, termo que havia ganhado uma conotação pejorativa na sociedade, relacionando-se aos fazedores de feitiço e até adoradores do diabo.

Com a chegada do kardecismo no Brasil, no início do século XX, estes terreiros vão sendo aos poucos influenciados pela doutrina kardecista. As explicações dadas pelos kardecistas para os vários fenômenos que ocorriam nos terreiros de Umbanda acabam sendo apropriadas por muitos destes, que passam a se utilizar da doutrina kardecista dentro de seus terreiros. Outro fator que aproxima estas duas religiões era a perseguição sofrida ainda pelos terreiros de macumba e a legitimidade social que tinha o kardecismo na sociedade.

O espiritismo kardecista era uma religião de status social, intelectualizada e freqüentada em grande parte por membros da elite brasileira. Para fugir das perseguições, muitos terreiros passam a se dizer espíritas, intensificando a associação entre estas duas religiões. Já no início do século XX, em artigos de jornais e escritos católicos, podemos encontrar as denominações de alto e baixo espiritismo conferidas, respectivamente, ao kardecismo e às práticas da macumba, candomblé e Umbanda. Esta era uma forma de diferenciar as duas religiões, já que, aos olhos de seus perseguidores (a Igreja Católica e os jornais conservadores da época), espiritismo e práticas afro-brasileiras eram a mesma coisa.

Mesmo com os esforços por parte dos kardecistas em negar a associação que se fazia entre sua religião e a Umbanda, esta associação continua durante praticamente todo o século XX e irá marcar profundamente esta religião de matriz africana em formação. Este período de perseguição irá durar ainda todo o século XX, com a invasão e fechamento de vários terreiros, além da prisão de participantes dos cultos e apreensão de objetos utilizados nos rituais.

Tal perseguição policial durou até a década de 1950, quando se inicia então o movimento federativo, particularmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. A repressão, no entanto, não cessa neste período, ela apenas muda sua forma. Agora, ao invés de perseguição policial, a Umbanda sofreria a perseguição ideológica da Igreja Católica e da imprensa conservadora, especialmente de jornais como O Estado de S. Paulo.

Levadas pelas críticas, as federações tendem a fugir de seus estigmas de origem e tentam retirar de seus rituais tudo aquilo que possa remeter ao seu passado negro, ou que pudesse passar a imagem de primitivo ou bárbaro. Inicia-se um forte movimento de ‘branqueamento’ dos rituais umbandistas. A perseguição ideológica e o movimento federativo vão da década de 1950 até o ano de 1964, quando se inicia uma expansão umbandista com o apoio do governo militar.

Na década seguinte, a Umbanda chega ao seu ápice, com nada menos do que 94,1% dos registros de terreiros umbandistas em cartório, contra apenas 4,7% de centros espíritas e 4,2% de candomblés, isto apenas em São Paulo (NEGRÃO, 1996, p. 99). A partir desta década, tirando um ou outro artigo publicado em jornais criticando a Umbanda, ela passa a gozar de uma certa legitimidade na sociedade brasileira. Apoiada por políticos e intelectuais, tendo seus congressos regionais e nacionais e tendo suas festas incluídas nos calendários de vários estados, como a tradicional festa para Iemanjá, que é feita em várias praias brasileiras na virada do ano, a Umbanda vira sinônimo de nacionalismo e passa a ser defendida por muitos intelectuais como a “legítima religião brasileira”.

Seu crescimento ao longo de todo este período se deu em duas frentes distintas. “De um lado, ao expandir-se, [a Umbanda] atingia setores da classe alta, e de outro lado era invadida pelo Candomblé” (NEGRÃO, 1999, p. 122). O crescimento polarizado continuou, portanto, presente na Umbanda. Isso foi possível graças ao intenso hibridismo que a marcou desde seu início, não tendo ela nascido com corpo doutrinário estabelecido e modelos fechados de rituais. Pelo contrário, cada pai-de-santo, cada líder de terreiro manteve sua autonomia para conduzir o culto conforme seus interesses e conhecimentos, podendo ele agregar elementos de diversas outras religiosidades, desde a doutrina kardecista até elementos das chamadas religiões da Nova Era.

Surgida da união de vários elementos trazidos de outras religiosidades, a Umbanda herdou da macumba suas práticas mágicas e rituais africanizados; do kardecismo, a doutrina dos espíritos; do candomblé, o panteão dos orixás; do xamanismo indígena, suas ervas e curas; além de ter sofrido influências orientais, ciganas, islâmicas e até mesmo das religiões holísticas da chamada Nova Era. Nesse quadro de elementos, cada terreiro pôde se estruturar a seu modo, agregando as influências que o líder achasse mais convenientes para o desenvolvimento de seu trabalho, o que provocou esta diversidade em torno dos rituais umbandistas.

Referências
DUARTE, E. G. Guia de religiões populares do Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2002.
NEGRÃO, L. Entre a cruz e a encruzilhada: formação do campo umbandista em
São Paulo. São Paulo: Edusp, 1996.
PINHEIRO, R.; INÁCIO, A. Aruanda. Contagem: Casa dos Espíritos, 2004.
SARACENI, R. Livro de exu: o mistério revelado. São Paulo: Madras, 2006.
SILVA, V. G. da. Candomblé e Umbanda: caminhos da devoção brasileira. 2. ed.
São Paulo: Selo Negro, 2005.

*LÉO CARRER NOGUEIRA
Mestrando em História pela Universidade Federal de Goiás.
E-mail: leocarrer@antitelejornal.net
NOGUEIRA, Leo Carrer. Do negro ao branco: breve história do nascimento da Umbanda. Goiânia: Revista Caminhos, Universidade Católica de Goiás, vol. 5, nº 2, 2007

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